É bastante comum doentes voltarem para casa após uma consulta médica sem entender bem o diagnóstico ou mesmo o tratamento receitado. O problema pode ser explicado pela falta de escolaridade do paciente, excesso de termos técnicos utilizados pelo médico ou apenas ausência de clareza na fala.
A comunicação é um ponto crítico no sistema de saúde brasileiro e, prova disso, é que o Ministério da Saúde elenca a “melhoria da comunicação entre profissionais da área” como a segunda meta prioritária dos Protocolos de Segurança da pasta, atrás apenas da “identificação correta do paciente”.
“As dificuldades de compreensão podem ser tão grandes que, na literatura médica, existem casos como de pacientes que perguntam ao médico se devem beber o creme antimicose receitado”, afirma Andrea Caprara, médico italiano radicado no Brasil que há anos trabalha para aprimorar a maneira com que os profissionais de saúde se comunicam durante as consultas. Segundo ele, a baixa escolaridade intensifica o gargalo, mas esse é um desafio mundial.
Para se ter uma ideia da amplitude da questão, até o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani passou por um constrangimento em decorrência da comunicação com seu médico, provando que a escolaridade nem sempre é determinante. O episódio ocorreu em 2000, quando Giuliani, em uma visita ao seu urologista, ficou aliviado quando informado que o resultado da biópsia da sua próstata havia sido “positivo”. No primeiro momento, o político achou que a palavra indicava que ele estava livre de um câncer, quando, na verdade, o exame indicava o oposto.
Autora do livro “Comunicação tem remédio: a comunicação nas relações interpessoais em saúde”, a enfermeira e doutora pela Universidade de São Paulo, Maria Júlia Paes da Silva, acrescenta que, muitas vezes, as pessoas têm vergonha de questionar o profissional de saúde ou de manifestar desconhecimento na frente dos seus acompanhantes.
Mas afinal, como saber se o paciente entendeu o que foi dito? Veja algumas dicas a seguir:
Faça perguntas:
De acordo com Paes, é importante que o profissional faça perguntas para confirmar o entendimento do que foi dito. Melhor ainda é que tais questionamentos ocorram longe dos acompanhantes. “Assim, estou mostrando interesse e o elo fica mais fácil.”
Atenção aos sinais:
A linguagem corporal diz muito sobre os pacientes e é preciso estar de olho. Sobrancelha erguida e cabeça lateralizada, por exemplo, são indicativos de dúvidas.
Repetição:
Peça para que o paciente repita o que lhe foi “ensinado” sobre a doença e sobre o tratamento.
Priorize as perguntas abertas:
Dê oportunidade para o paciente falar e, assim, expor seus contextos individuais que podem interferir em seus aspectos clínicos e psicológicos. Para isso, evite os questionamentos “fechados”, que permitem respostas “sim” ou “não”.
Linguagem clara:
Use linguagem simples, sem jargões e termos técnicos.
Uma informação por vez:
Divida em etapas os ensinamentos sobre a doença e, depois, questione o paciente sobre o que foi dito. Essa técnica é indicada, sobretudo, para pessoas com doenças crônicas. No caso de alguém com diabetes, por exemplo, o primeiro encontro serve para que o médico ou enfermeiro explique o que é a doença e suas causas. No segundo, são abordados fatores de risco conectados à enfermidade, como colesterol alto e obesidade e, em seguida, são dadas dicas de alimentação, recomendações de exercícios físicos etc. Por fim, o último encontro é focado na gestão da medicação.
Incentive o empoderamento do paciente:
Mostre que ele pode fazer perguntas, inclusive as essenciais, como “Qual é o meu problema?”, “O que eu preciso fazer?” e “Por que é importante para mim fazer isso?”. De acordo com Caprara, o paciente informado e envolvido na tomada de decisões tem maior adesão às recomendações, modifica seus comportamentos com mais facilidade e cria vínculos de confiança.

Leia também:


















