Cerca de 60% das pessoas acham que estamos em crise e em um mundo com piores oportunidades. Isso não é novidade. Crescemos ouvindo dos mais velhos que no tempo da juventude deles era melhor. Nossos pais o diziam – no nosso tempo era mais fácil. Eu acho que esse sentimento é esperado, pois quem já viveu e já ultrapassou dificuldades se considera um sobrevivente e, por isso, tende a ter saudades de um tempo que já passou e no qual sobreviveu e teve até um razoável sucesso.
Mas de fato estamos hoje em um mundo muito diferente, e o diferente é desconhecido. E o desconhecido nos faz temer o futuro.
Vivemos profundas transformações muito diferentes de todas pelas quais a humanidade já passou – mudanças epidemiológicas e demográficas, mudanças sociais e culturais (em grande medida fruto da revolução comunicacional que faz as pessoas quererem o que passam a saber que existe, mas não possui), violenta transformação tecnológica da sociedade e das práticas nela desenvolvidas, o aparecimento de novas práticas e dinâmicas econômicas (novas relações de trabalho, novas formas de remuneração e de uso do dinheiro). Todas essas transformações juntas não podem ser enfrentadas individualmente, temos que enfrentá-las no pacote de transformações que tem, na verdade, gerado esse clima de que estamos em crise e de que o mundo está pior.
Todos anseiam por um mundo melhor e a leitura desses anseios deve nos mostrar que aí estão oportunidades e não ameaças.
Nos dois últimos posts fiz uma resumida análise da situação do Brasil e tentei olhar para o futuro que se avizinha e demonstrar as dificuldades que teremos de enfrentar. E, portanto, as oportunidades. Depende de como vemos o que ocorre e como nos comportarmos.
Neste exato instante estamos discutindo a telemedicina, a inteligência artificial e a parte da revolução tecnológica que tem a ver com a tecnologia da informação transformando a vida dos homens e da sociedade. E o que vemos? A ameaça aos empregos. A ameaça aos médicos e a sua prática. Não vemos oportunidades, não vemos uma sociedade em que as pessoas tenham mais acesso a serviços que melhorariam a sua vida.
O desafio da inovação é esse de entender que estamos vivendo um tempo de oportunidades disruptivas. Não temos mais oferta de planos de saúde individuais por causa do envelhecimento da população e do controle de preços que a ANS faz. E se criarmos um plano de saúde verticalizado, com porta de entrada e regulação baseada na construção de linhas de cuidado e protocolos clínicos para ter acesso à tecnologia? Se na internação dos pacientes já se inicia o planejamento de sua alta de acordo com as características de sua condição clínica e garantindo um cuidado integrado baseado em uma equipe multiprofissional? Não precisa mais criar, já existe e é muito bem-sucedido, apesar de ir contra os nossos postulados baseados no passado.
A questão é entender a realidade e sua complexidade e enxergar as oportunidades para poder desenhar novas soluções. O mundo que temos que construir tem que ser um mundo melhor, ou não valerá a pena construí-lo, e quem o fará seremos nós. Mas para isso temos que enfrentá-lo e esse enfrentamento deve partir da premissa de que o faremos em equipes e com lideranças ativas.
A tecnologia médica que está aparecendo em uma velocidade estonteante e em particular na área da tecnologia da informação tem que ser entendida para ser usada. Isso não significa que cada um de nós tem que entender, se transformar em informata. Temos que nos cercar de pessoas que entendam as diversas tecnologias e desse diálogo produzir as soluções que gerarão as novas oportunidades de negócio e de melhoria da condição do viver na terra.


















