Este mês me atrapalhei com meu post mensal. Não queria tratar da pandemia. Mas não teve jeito; é o assunto de todas as mídias – as boas e as fake.
Tenho participado de muitas atividades ligadas à epidemia e sempre tem gente me surpreendendo, achando que vivemos um evento qualquer. Mas, na verdade, desde a gripe espanhola, não vivíamos um fenômeno tão destruidor.
A gripe espanhola – que de espanhola não tinha nada – somente recebeu esse nome porque era o único país da Europa que a discutia abertamente. Nos outros países que eram participantes da primeira grande guerra mundial, o assunto era proibido, pois afetava o moral das tropas ter um inimigo além dos que se enfrentavam no campo de batalha e ainda mais invisível – bastava o gás mostarda!
Aliás, a negação das epidemias é um fenômeno recorrente. Aconteceu durante a ditadura militar em 1974, com a epidemia de meningite que era escondida pelo governo de então, e aconteceu de novo, agora no norte da Itália. O desastre italiano é fruto direto da tentativa de negar a virulência da epidemia para não parar as fábricas e ter que arcar com o prejuízo econômico daí decorrente. A postura somente mudou quando começaram a não ter mais onde enterrar os mortos e anotem aí: vai começar em pouco tempo a busca dos culpados e deverão ocorrer muitas mudanças no norte rico e ganancioso da Itália.
No momento da gripe espanhola – 1918-1919, o mundo acomodava dois bilhões de pessoas. Estima-se que 25% foram contaminadas e morreram – cerca de 50 milhões de habitantes. No Brasil, que à época tinha cerca de 29 milhões de habitantes, morreram cerca de 35 mil pessoas. Se a frequência relativa da mortalidade se repetir hoje, teremos cerca de 255.000 mortes! Mas os cálculos do Imperial College de Londres estimam que se relaxarmos na quarentena, teremos mais de um milhão de mortos. E se formos muito rígidos, ficaremos abaixo dos 50.000.
São números impressionantes, mas nesta epidemia em um mundo tão conectado, tão concentrado nas cidades, tão desigual na distribuição da riqueza, tão envelhecido, não dá para duvidar das consequências de relaxar nas medidas não farmacológicas quando não temos nenhuma arma no arsenal terapêutico. E pior – temos escassez de equipamentos de proteção individual, de respiradores e de testes que poderiam lançar uma luz sobre como vamos indo.
O capítulo dos testes é especial. Fomos capazes de decifrar o genoma do vírus em 48 horas e todos os grandes laboratórios brasileiros públicos e privados conseguiram produzir o teste que identifica o vírus, os chamados testes moleculares RT-PCR. No entanto, em um primeiro momento, faltou matéria-prima no país e, a seguir, descobrimos que nossos equipamentos demoravam oito horas para realizá-los e não tínhamos equipamentos de automação. Assim, surgiram grandes filas de exames e começamos a ficar no escuro na equação casos existentes versus mortes ocorridas.
Começamos a resolver esse problema. Mas o pior ocorre com os testes imunológicos, que buscam identificar as imunoglobulinas, ou seja, a presença de um marcador de que o paciente entrou em contato com o vírus e sobreviveu, pois desenvolveu anticorpos. Os testes que estão disponíveis no mercado até abril não são melhores, de uma forma geral, que jogar cara ou coroa! – na opinião dos entendedores que eu consultei (inclusive os testes comprados pela Vale no sufoco do cai não cai do Mandetta).

E os medicamentos? Mais confusão. Quando tudo começou, se dizia que os inibidores de ECA usados por cardiopatas podiam piorar a doença. Também se condenou o uso do ibuprofeno. As duas coisas se revelaram equívocos. E aí começaram a aparecer muitos produtos com promessas importantes –ribavirina, remdesivir, favipiravir, interleucina-6, arbidol, lopinavir, darunavir, camostat, cloroquina e hidroxicloroquina. E aí, o nosso presidente e o americano acharam que era o momento de ter um tratamento para a doença e promoveram o uso destas duas últimas substâncias associadas ou não a azitromicina.
No entanto, os estudos clínicos realizados até agora – quase todos de uma qualidade duvidosa – não conseguiram demonstrar que essas drogas são eficazes no tratamento do coronavírus. Quanto à segurança, já sabíamos da dificuldade: as duas drogas, largamente usadas em um pais como o nosso, que já chegou a ter 500 mil casos de malária por ano, tem sérios efeitos colaterais e devem ser administradas com cuidado.
O artigo – Hidroxicloroquina e a pandemia da desinformação: o que podemos tirar de lição – escrito por Ricardo Petraco que é brasileiro e cardiologista e pesquisador da Imperial College/London, pode ser acessado através do seguinte link – https://medium.com/@rpetraco/hidroxicloroquina-e-a-pandemia-da-desinformação-o-que-podemos-tirar-de-lição-ea128c6402f7. Este artigo analisa primorosamente os estudos até aqui publicados sobre a cloroquina e, melhor ainda, fornece um guia muito claro de como se constrói uma evidencia robusta. Vale a pena ler e aprender. Mas o fato é que não temos medicamentos à altura da epidemia.
O quadro é pulmonar ou é uma violenta reação inflamatória, tem consequências importantes no mecanismo de coagulação, sendo que 15% dos pacientes vão a hemodiálise, outros ficam com falência cardíaca. Na verdade, como a mortalidade afeta muito os idosos e estes são portadores de comorbidades, tem se enfrentado muitas complicações adicionais que revelam o quão crítico é ter uma UTI bem equipada e com pessoal altamente qualificado. Com relação à mortalidade, os dados mundiais apontam que morrem 2 portadores a cada mil na faixa etária de zero a 40 anos e 15 a cada 100, na faixa etária acima de 80 anos! Os jovens e crianças que morrem, em sua maioria, são portadores de alguma outra patologia crônica.
Com relação à vacina, existe uma corrida mundial para chegar primeiro. O mercado do primeiro a chegar será fantástico – bilhões de pessoas a vacinar, embora não saibamos quantos estão imunes por já terem tido a doença. Estima-se que cerca de 40% dos contaminados não percebem sequer que tiveram a doença e 40% a tem de uma forma bastante branda. Mas 15% precisa de hospital e 5% de UTI. Mas a vacina será um sucesso. E acredita-se que, diferentemente da vacina da AIDS, cujo vírus é mais complexo, logo teremos uma vacina para a COVID-19.
Mas tivemos mais surpresas com a falta de materiais simples como máscaras e aventais, cuja produção o mundo transferiu para o sudeste asiático devido ao preço da mão de obra ser mais barato. Todos aprendemos uma lição: quando um produtor único quebra, o mundo sofre. Temos que repensar essas cadeias produtivas. O mesmo ocorreu em relação aos respiradores.
Finalmente, o mundo inteiro tem que repensar como construir melhores sistemas de saúde. Nos últimos 15 ou 20 anos, o mundo correu atrás do equilíbrio fiscal e sacrificou os gastos sociais e em particular os gastos com saúde. No Brasil não foi diferente. Desde o desastre do último governo da Dilma, o financiamento da saúde perdeu cerca de 20 bilhões de reais. Não somente não recebeu mais, mas foi desfinanciado. É esse SUS que tem que enfrentar todas essas questões assistenciais e tecnológicas. Aliás, mais sofrida que a saúde, somente a Ciência nestes tristes trópicos.
Como iremos nós, sociedade brasileira, nos comportarmos daqui para frente em relação a estas questões? O que queremos para nós nos próximos anos? Melhor assistência à saúde e um país que consiga produzir parte da ciência que necessita consumir ou descobrir que a terra é plana?

















