O PIB real do primeiro trimestre deste ano caiu 1,5% em relação ao quarto trimestre do ano passado. O segundo trimestre será ainda mais dramático, com queda projetada em torno de 10%, pois o isolamento social começou apenas na segunda quinzena de março. O noticiário econômico continuará depressivo por mais algum tempo.
Olhando para frente, encontramos sinais alentadores. A recuperação em alguns setores e os estímulos do governo sustentam a expectativa de recuperação da atividade no segundo semestre, a saber:
- Redução do isolamento
A redução voluntária do isolamento social desde meados de abril contribuiu para estabilizar a atividade em maio. Indicadores diários e semanais mostram recuperação, ainda que tímida, de alguns setores da economia.
Do lado da demanda, o faturamento do comércio varejista e os gastos em restaurantes apresentaram recuperação moderada no mês passado.
Do lado da oferta, a movimentação de pessoas para o trabalho também vem melhorando. Outros dados relevantes são o aumento do consumo de energia elétrica (Figura 1), o crescimento do fluxo de veículos pesados nas rodovias e o incremento marginal no nível de utilização da capacidade instalada da indústria.
Obviamente o nível da atividade ainda está abaixo do patamar original, mas já encontramos os primeiros sinais de melhora do consumo e da produção.
Figura 1: Carga de energia elétrica melhorou nas últimas semanas.

Fonte: ONS e Eduardo Yuki.
- Estímulo fiscal exorbitante.
Os estímulos fiscais anunciados até o momento somam 9,8% do PIB. O auxílio emergencial de R$ 600 deverá ser estendido por mais alguns meses, o que poderá levar o tamanho do pacote para 11,3% do PIB.
Parte dessas medidas não representam estímulo efetivo para a atividade, como a antecipação de benefícios e a postergação de impostos. Assim, o impacto sobre a atividade econômica ficará em 4,8% do PIB, o maior impulso já visto nesse país.
Tabela: Medidas fiscais ajudam a atividade.

Fonte: Min. Economia e Congresso Nacional. Elaboração: Eduardo Yuki.
O programa de auxílio emergencial para trabalhadores informais, MEIs, autônomos e desempregados foi aprovado para mais de 59 milhões de pessoas até o mês passado. Ainda existem casos em reanálise e potenciais novos entrantes do cadastro único, o que poderá elevar o número de beneficiados para quase 70 milhões de pessoas. O custo desse programa emergencial deve passar dos R$ 50 bilhões por mês, valor equivalente a 13% do consumo mensal de todos brasileiros.
Um ponto interessante é que o número de elegíveis atingirá dois terços da população economicamente ativa e ficará acima do número de trabalhadores informais, MEIs, autônomos e desempregados. Isso sugere que pessoas que não estavam trabalhando antes da crise estão sendo agraciadas pelo programa.
O impulso fiscal é exorbitante e ajudará a minimizar o impacto da crise no poder de compra das famílias.
- Estímulo monetário extraordinário.
O Banco Central do Brasil reduziu a taxa Selic para 3,0%, o menor patamar histórico, e sinalizou nova queda para esse mês. Além disso, implementou várias medidas extraordinárias de liberação de liquidez para o sistema financeiro.
Em um ambiente normal, essas medidas incentivariam o mercado de crédito e o consumo das famílias. Nesse momento, a elevada incerteza deverá impedir um ciclo de expansão de novos empréstimos, mas é nítido que existe um colchão para evitar uma crise de liquidez no país.
Além disso, a redução da incerteza ao longo do tempo com a volta da atividade possibilitará que parte dessa liquidez colabore no processo de recuperação da demanda doméstica no segundo semestre.
Portanto, a redução voluntária do isolamento, o impulso fiscal exorbitante e o estímulo monetário extraordinário ajudarão na recuperação da atividade econômica no segundo semestre.
Não existe almoço grátis.
O impulso fiscal ‘nunca antes visto’ deteriorará substancialmente as contas públicas. O resultado fiscal primário apresentará déficit de 11% do PIB, e a dívida pública bruta saltará para 94% do PIB.
A dívida pública poderá estabilizar em torno de 110% do PIB em 2034, ou seja, manteremos a solvência fiscal no médio prazo. Importante salientar que essa projeção inclui a manutenção da lei do teto de gastos, o que implica que os gatilhos inibidores de aumento de despesas serão acionados em 2022.
Figura 2: Dívida pública deve estabilizar em 110% do PIB em 2034, se respeitarmos a lei do teto de gastos.

Fonte: Min. Economia, Congresso Nacional e Eduardo Yuki.
Enfim, precisaremos implementar um enorme esforço fiscal nos próximos anos com forte contenção de despesas públicas para continuarmos solventes.


















