Poucos alimentos são tão polêmicos quanto o leite. Foram muitas as vezes onde a comunidade científica se dividiu em relação aos seus benefícios ou malefícios – e, no meio da história, encontram-se os pacientes, perdidos em meio à febre de cortá-lo da alimentação.
“Essa aversão é uma das polêmicas formadas atualmente por modismos, criados a partir de estudos não conclusivos e/ou com conflitos de interesse, e disseminados pela mídia”, afirma Mônica Neumann Spinelli, professora do curso de nutrição da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A bebida é uma ótima fonte de cálcio de alta biodisponibilidade e sua proteína é de alto valor biológico – ambos nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo. Porém, não são poucos os mitos relacionados ao leite que são amplamente difundidos. A seguir, especialistas em nutrição esclarecem os mais comuns.
Emagrecimento:
A maior parte do modismo em relação a cortar o leite está relacionado a este mito. “A hipótese foi levantada pelo fato da lactose ser uma molécula que retém água, assim, acreditando-se erroneamente que o leite faria com que o indivíduo retivesse água e aumentasse o peso”, comenta Spinelli.
Porém, a docente aponta que alguns estudos clínicos menos abrangentes demonstram o contrário: quanto maior a ingestão de cálcio, menor seria o índice de gordura corporal. Uma das explicações – de um estudo da Universidade de São Paulo em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo – diz que, quanto mais cálcio no organismo, menor o risco de o hormônio calcitrol estimular a entrada deste mineral nos adipócitos, que dificultaria a queima de gordura.
Claro que, em excesso, todo alimento tem potencial de provocar aumento de peso. “O leite tem gordura e, portanto, calorias. Não há problema algum quando o consumo é moderado. O problema acontece quando ele é excessivo”, alerta Cibele Gonsalves, diretora do Departamento de Nutrição da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
Produção de muco:
Ainda são necessárias evidências mais conclusivas para determinar essa relação, pois, primeiro, é preciso entender os mecanismos envolvidos na produção de muco. Por isso, até que haja comprovação, não é recomendada a restrição ou eliminação por este motivo.
Potencial alergênico:
Alguns otorrinolaringologistas e alergistas recomendam a redução de leite e derivados com o intuito de melhorar outras alergias que o paciente possa ter. “Porém, isso varia muito de pessoa para pessoa. Se essa fosse uma regra, também deveríamos reduzir soja, ovo, carne vermelha e oleaginosas, que também têm potencial alergênico. É preciso fazer uma análise individual”, orienta Gonsalves.
Biodisponibilidade do ferro:
O cálcio e o fósforo presentes no leite, de fato, afetam a absorção do ferro. Por isso, é recomendado que não se consuma laticínios nas grandes refeições, onde se costuma ingerir alimentos mais ricos em ferro, como carnes e leguminosas. Isso não quer dizer que se deve apenas evitar beber leite, mas também combinações como macarrão com molho branco e bife ou hambúrguer com milk shake. A recomendação é ainda mais importante para pacientes com predisposição a anemia.
Leite desnatado, semidesnatado ou integral:
“A diferença entre os três tipos se refere unicamente ao teor de gordura. Os nutrientes importantes do leite, como a proteína e o cálcio, permanecem iguais”, resume Spinelli. Isso significa que não há problema em preferir o integral, desde que o consumo seja acompanhado de um estilo de vida saudável. Quanto à falta de gordura para absorção das vitaminas A e E, que são lipossolúveis, Gonsalves afirma que as quantidades destes nutrientes são insignificantes, portanto, não justificam o consumo de leite integral apenas por este fim.
Quem deve, de fato, cortar o leite?
Spinelli explica que o alimento e seus derivados só devem ser cortados ou reduzidos da dieta em dois casos: alergia à proteína do leite – que também pode se estender ao leite de cabra – e intolerância à lactose.
“Isso acontece quando essas condições são comprovadas, seja através de um exame, avaliação clínica ou teste de provocação oral”, conta Gonsalves. Neste último, o médico verifica os sintomas possivelmente causados pelos laticínios e os retira completamente da alimentação. O objetivo é entender se os sintomas desaparecerão com a exclusão total.
“Depois de certo tempo, introduzimos os laticínios novamente e observamos se os sintomas voltam. Fazemos isso com o próprio leite e, depois, com os demais derivados”, completa Gonsalves. Ao realizar o teste com os derivados, pode-se observar o grau de intolerância – enquanto alguns pacientes não reagem bem a nenhum laticínio, outros podem consumir iogurtes, queijos e afins sem problema algum.
Quem, de fato, precisa cortar o leite tem como opções saudáveis as bebidas vegetais – que, embora não sejam tão nutritivas, são a melhor alternativa. Por isso, a substituição apenas é recomendada em caso de alergia à proteína do leite. Os intolerantes podem consumir versões do leite e derivados sem lactose.
Para quem deseja mais informações, assim como referências bibliográficas, a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) disponibilizou uma declaração de posicionamento sobre o consumo de leite e de produtos lácteos e intolerância à lactose, disponível nesse link!



















