Cada vez mais jovens se esforçam para mudar a realidade do lugar onde moram. Por meio da economia colaborativa, é possível unir forças e ofertar educação, formação e informação, que nada mais é do que o 5º princípio do cooperativismo. Além disso, ao promover desenvolvimento social e econômico, há ainda o interesse pela comunidade – 7º princípio que rege os fundamentos dos cooperados.
Esses são alguns dos princípios do cooperativismo aplicados na Organização Não-Governamental (ONG) Favela Mundo. O projeto nasceu em 2010, com o intuito de proporcionar oficinas para crianças e adolescentes da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Desde sua fundação, já atendeu mais de 4,1 mil alunos em 125 comunidades da capital e da Baixada Fluminense. Há ainda a capacitação profissional para maiores de 16 anos, com oficinas ligadas às artes cênicas, estética e carnaval.
Por mais que não seja uma cooperativa, eles carregam em sua essência princípios intrinsecamente ligados ao trabalho em equipe. O ensinamento é repassado aos grupos de trabalho que se formam nas oficinas de maquiagem artística e fantasias. Com isso, eles conseguem uma boa colocação nas escolas de samba da cidade e no mercado de trabalho.
“Tentamos repassar o ensinamento de cooperativismo para nossos alunos, de que se chegarem com um grupo formado de profissionais capacitados em uma escola de samba, por exemplo, terão mais chances. Hoje, temos alunos que são responsáveis pela maquiagem da Beija-Flor e Imperatriz Leopoldinense”, conta o diretor-artístico e idealizador do projeto, Marcelo Andriotti.

Uma mudança de comportamento na comunidade
O que nasceu após um estágio obrigatório da faculdade de Andriotti, hoje transforma a realidade de quem participa do projeto. A principal mudança percebida nos alunos é um maior engajamento na escola e, consequentemente, a melhora no relacionamento familiar. Atualmente, eles têm uma parceria com a Secretaria de Educação e promovem as oficinas dentro do ambiente escolar.
“Ao invés de alugarmos um espaço próprio, ambientamos a sala de aula para que isso se torne agradável para o aluno e saímos das paredes totalmente brancas da escola pública. Com as oficinas, notamos uma grande mudança nas crianças e adolescentes, inclusive no comportamento. Há a diminuição da agressividade e um maior interesse em estar dentro da escola”, comenta.
Empoderamento e mudança financeira
Ao levar os filhos para as oficinas, muitas mães começaram a se interessar pelo projeto e pediram para também terem acesso às aulas. A partir daí, foram criados cursos de maquiagem artística e social, produção de fantasias, decoração de unhas e até de tranças e turbantes. Algo que mexeu não só no aspecto financeiro, mas também no empoderamento dessas mulheres.
“Conforme as aulas vão acontecendo, notamos um crescente empoderamento nas alunas, tanto estético, quanto de posicionamento social. Elas adquirem mais segurança e isso acaba contagiando as outras. Reconhecem sua própria importância, veem que seu potencial é muito maior e somam forças com as colegas. É maravilhoso ver esse desabrochar. Elas começam falando baixinho, cheias de vergonha, sem saber o que dizer de si mesmas, com cabelo preso, brinco pequeno e batom discreto. Aos poucos, elas se mostram, começam a pesquisar, a estudar, ganham voz e se colocam como exemplo para suas famílias, suas comunidades”, diz a professora de trança e turbante, Viviane Santos.
Mudança social movida pela vontade de ajudar
O sonho de Andriotti era transformar a realidade de comunidades do Rio de Janeiro. O gaúcho viu, na criação da ONG, uma oportunidade de ajudar famílias a terem uma fonte de renda e crianças a terem melhores oportunidades de estudo. Hoje, recebe depoimentos de pais com filhos mais engajados na escola e mulheres com uma nova profissão.
“Achei que seria uma forma de transformar naquilo que é o sonho de todo mundo quando vem para cá, de ver a cidade perfeita. Meu intuito é levar mais cultura, não só uma aula de teatro normal, mas que isso pudesse dar noções de cidadania, respeito e ética para os alunos. Para, assim, eles poderem multiplicar isso dentro das comunidades”, conclui Andriotti.


















